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sábado, 15 de agosto de 2015

18 de agosto, terça, é o lançamento do livro "Terecô de Codó, uma religião a ser descoberta, de Cícero Centriny."



Lançamento do livro: "Terecô de Codó, uma religião a ser descoberta", de Cícero Centriny.
Prefácio de Sérgio Ferreti e Mundicarmo Ferreti (Pesquisadores da UFMA), e apresentação de Pai Euclides Menezes Ferreira (Talabyan Lissanon), fundador, babalorixá da Casa Fanti-Ashanti. 
Custo/ investimento - R$ 40,00.
Quando: 18 de agosto, terça-feira, a partir das 18h.
Onde: Mansu Nangetu, Tv. Pirajá, 1194 (entre Duque de Caxias e 25 de Setembro) - Marco da Légua, Belém/ PA.
Informações: 91-32267599.


"Terecô de Codó, uma religião a ser descoberta"

Este livro é o resultado de muitas pesquisas, ao longo de nove anos, que apresentam pontos de vista das autoridades religiosas, muitas entrevistas e depoimentos, além do convívio extenso com os “terecozeiros” e suas práticas religiosas, e  procura deixar um registro em pinceladas da história do negro codoense, tendo como pano de fundo a sua religião de matriz africana e uma trajetória de resistência para a sua preservação.
O livro tem a pretensão de registrar a história do Terecô de Codó, no Maranhão, uma religião originada e praticada naquele município desde os primórdios daquele lugar. A localidade é Santo Antônio dos pretos, distante 60 Km do centro urbano da cidade, e teve início como um reduto de africanos e seus descendentes que fugiram da escravidão nas fazendas de arroz e algodão instaladas naquelas regiões. Atualmente é uma localidade rural remanescente de quilombo.
Este trabalho tem como objetivo fundamental fazer um registro e divulgar a prática do ritual do Terecô como parte extremamente importante da história negra do Maranhão, contribuindo assim para preservar e enriquecer a memória, a história e a cultura popular do Brasil, como por exemplo, a informação de que em Codó, no povoado de Santo Antônio dos Pretos e no povoado de São Joaquim de Alolô, era praticado o “vodu”, culto que ainda mantém partes secretas de suas práticas na atualidade de outras religiões  presentes em Codó, um culto muito parecido com os cultos de vodu em Cuba e no Haiti.
O trabalho de Cícero Centriny sobre o Terecô de Codó é um depoimento exaustivo de pessoa que tem longa vivência sobre o tema e uma contribuição importante para preservar a memória da cultura negra no Brasil. Cícero foi iniciado no Tambor de mina e desde criança frequenta o Terecô de sua cidade, do qual é praticante, conhecendo-o a fundo. Cícero afirma que resolveu escrever sobre o Terecô com o compromisso de não entrar nos dogmas da religião nem revelar os fundamentos, por ser grande admirador e praticante nato dessa religião. Teve o objetivo de registrar e resgatar parte da história do culto e divulgar sua prática, contribuindo para enriquecer a memória e a história do negro no Maranhão.



quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Resenha: FARFALHANDO A CARTOGRAFIA DA COR NEGREIRA.

FARFALHANDO A CARTOGRAFIA DA COR NEGREIRA
Por Socorro Patelo
Resenha do livro Cartografia social dos afrorreligiosos em Belém do Pará.
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VALLE, Camila do (Org.) et all. 
Ed: Rio de Janeiro, Belém: Casa 8, IPHAN, 2012. 190p .



        De início pensei em encontrar mapas, pensando em cartografia como arte de compor mapas, no caso mapeamento social dos afrorreligiosos de Belém. Mas me deparei com um quadro social descritivo das diversas comunidades religiosas de origem africana, que, de uma forma anti literária, traduzem suas experiências místicas e o conflito entre o mundo de seus deuses e o mundo político dos brasileiros, onde estão inseridos.
Reunidos em terreiros – palavra portuguesa para área de terra – que em yoruba é egbe; ou casa (ilé, ou ilé axé, casa de axé), ou como dizem os pertencentes à nação Angola (manso, Abassá, inso ou cazuá Ngunzo-Ngunzo); ou o chamado barracão, onde eles colocam em xeque os discursos historicamente estabelecidos como lógicos, que se pretende fixar e explicar objetivamente.
Quando os povos africanos vieram para o Brasil, a intenção é que perdessem tudo: liberdade, família, língua, nação, tribo a que pertenciam e tudo o mais que poderia identifica-los como pessoas. A tragédia social que viveram teve a fé em suas divindades, como único sustentáculo e força de preservação de humanidade e valores civilizatórios. Foi a fé que manteve (e mantém) suas identidades, ainda que, com o decorrer do tempo tenha havido sincretismo, mudanças em suas práticas, através da mútua influência das várias nações, dos vários dialetos que falavam, assim como de outros povos oprimidos, como os povos indígenas.
A desconstrução de suas identidades levou-os à construção de uma identidade religiosa e cultural (africana) formada das diversas nações (Umbanda, Mina Jeje Nagô, Angola, Keto Jeje Savatu e a Pajelança). Eles se reconstroem nos terreiros, dando significados às suas próprias vidas, na cena de seus signos sagrados, sua música e sua dança (uma espécie de dança de roda de Angola, que em banto era semba, ou samba, na língua quicongo e na língua umbundu, significava "agitado"),assim como em seus adereços (colares, pulseiras, tiaras etc.).
Em cada detalhe, esses povos também se reconstroem em uma África brasileira e amazônida. A terra de origem tem o caráter mágico no papel de um elemento crítico e valorativo. O mágico é a dimensão da origem. Eles são africanos, ainda que tanto tempo tenha se passado. Sua origem não foi perdida com a tentativa de desconstrução social. No interior dos terreiros, eles detêm um conhecimento que não lhes pertencem e que é passado às gerações posteriores através da oralidade e da memória. É Ifá (o oráculo) quem profetiza e dá as orientações e desejos dos orixás (entre os Yorubas) ou Jinkisis (entre os de Angola), pois tudo tem um segredo divino. “Tudo tem fundamento e tudo tem um tempo.” Nada há de natural na natureza. Ela é ao mesmo tempo cultural, natural e divina.
Mas para a socierdade brasileira o caráter de suas comunidades foi lapidado nos preconceitos, na intolerância social, na repressão, na incompreensão e nas violências que sofreram e que ainda hoje sofrem como demonstram seus depoimentos. Ainda assim, preservam suas tradições. Mesmo que a complexidade de suas relações e diferenças ritualísticas manifestados nas várias nações e segmentos, eles se adequam às circunstâncias políticosociais, buscando cidadania, liberdade de expressão, liberdade religiosa, o direito de oferecer suas oferendas aos seus orixás, de confortar doentes em hospitais, de cultuar os ancestrais nos cemitérios.
O mapeamento tem por base a visualização dessas diversas nações e seu fortalecimento como religião, buscando minimizar os distanciamentos que impedem a aceitação de culturas diferentes, combatendo a discriminação religiosa, melhorando a relação entre suas próprias comunidades e ainda, buscando interação com população. Na visibilidade social e política, eles tem procurado sair do anonimato a que foram relegados para mostrar que, como toda religião verdadeira, também buscam a paz, a harmonia social, promovem trabalhos sociais, inclusive filantrópicos e merecem o respeito dos demais.
Os depoimentos contidos no livro são importantes como objeto de estudos, seja na área de direitos humanos, posto que seus personagens clamem serem justiçados e verdadeiramente legalizados; seja na área da política democrática, sinônimo de igualdade; seja nas dimensões culturais da antropologia, pesquisando-se a relação identidade e alteridade; seja porque contém rico material para o campo de pesquisa da psicologia social e os fenômenos de grupos – algozes e/ou vítimas – de racismo, fanatismo, linchamentos, perseguições, etc., podendo abranger estudos da sociologia, da ciência política, da pedagogia (vide Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido) e da filosofia, que reflete sobre toda atividade humana, na busca de seu significado.
O grupo de afrorreligiosos é como “Macunaíma” de Mário de Andrade, que nasceu “preto retinto e filho do medo e da noite”. Na atualidade, o medo que os acuava está se expondo à sociedade, para que esta possa conhecer a riqueza desse grupo que manifesta sua visibilidade. Para compreendê-los é preciso imergir em sua cultura, desfazendo o ofuscamento social secular.
Com essa cartografia, eles esperam que Marx tenha razão, e que “tudo que é sólido se desmanche no ar”, fazendo ruir o sólido império do preconceito e da discriminação que os situa na exclusão social prejudicial aos seus direitos humanos mais fundamentais de igualdade e de liberdade.

São Paulo/SP, fevereiro de 2013.

Socorro Patello
Profa. de Filosofia aposentada/ UFPA

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

As lideranças de Terreiros da “Nação Angola” convidam para o: (Re) Lançamento do Livro Cartografia Social dos Afrorreligiosos em Belém do Pará - Religiões Afro Brasileiras e Ameríndias da Amazônia: afirmando identidades na diversidade.

As lideranças de Terreiros da “Nação Angola” convidam para o (Re) Lançamento do Livro Cartografia Social dos Afrorreligiosos em Belém do Pará - Religiões Afro Brasileiras e Ameríndias da Amazônia: afirmando identidades na diversidade

Dia 28 de Novembro (quarta-feira) às 17h, no Terreiro Mansu Nangetu – Trav. Pirajá, 1194 (entre Duque e 25) Belém-PA - Telefone: (91) 3226-7599 

Será servido um coquetel com pratos tradicionais da culinária de terreiros afro-amazônicos, como uma forma de resgate da identidade do paladar dos povos de terreiros.




As multiplas falas dos angoleiros.
.
O evento vai reunir os terreiros de matriz Banto da zona metropolitana de Belém para a distribuição de um exemplar do livro para cada liderança ou membro de terreiro que participou da pesquisa que resultou na cartografia. Será também um momento de debate e reflexão sobre a preservação de tradições afro-amazônicas e resistência política e cultural na capital paraense.
Os organizadores convidaram as pessoas que participam do capítulo dos angoleiros para fazer um sarau de leitura, e então cada um vai escolher um trecho de seus depoimentos para uma leitura coletiva que tem a intenção de provocar o debate com os convidados que estiverem presentes. Isso tudo à partir da experiência relatada no livro pelos próprios povos tradicionais de terreiros.


Trechos de depoimentos das lideranças de terreiros de Angola.

Mametu Nangetu/ Oneide Monteiro Rodrigues “...e as pessoas que vem no terreiro estão acostumados com imagem como eles vêem na Umbanda e na Mina, e quando ele vem aqui e vê uma estátua mas que é de louvor a Oxum e não tem nada haver com o que ele conhece, ele estranha. Mas o povo ele é muito sincrético e ele gosta de ver um caboco, um santo Antônio, e acho que é por isso que as imagens estão nas casas dos terreiros,(...). Os terreiros não sobrevivem sem os clientes, e nem sem os filhos da casa, então tem que ter um chamamento, uma atração, e como atrair essas pessoas para dentro de um terreiro?! Uma casa de culto Angola é isso aqui: tem os tambores e tem os Ngunzos, né?! Tem os nossos Ngunzos-Ngunzos! O que é os nossos fundamentos? A nossa segurança é isso! E nas outras casas de nação isso não tem, não tem Ntoto e nem Cumeeira, que são o nosso Ngunzo. É isso, é a natureza e é por isso que nós não cultuamos nada de gesso, no nosso Ngunzo ou é pedra, ou é ferro, ou é do mar, ou é da terra. A nossa força está na natureza, entendeu?!”

Mam'etu Muagilê/ Beth de Bamburucema “...uma senhora chegou comigo eu tava na rua de casa, e disse “mãe Beth eu queria que a senhora fizesse um banho pra mim”, ela é evangélica, “mãe Beth eu queria que a senhora fizesse um banho pra mim construir a minha casa que tão de olho gordo, tão fazendo macumba tão de olho gordo em cima de mim”, eu fiquei olhando pra ela e disse: tu vai fazer a tua casa não vai ser preciso banho nenhum, nem trabalho nenhum, eu disse: tu vai seguir o que eu vou te dizer? Ela disse: sim, eu disse então ainda bem que tu vieste me procurar no mês de fevereiro, porque tem o ano todo pra ti trabalhar e fazer a tua casa e passar ano na tua casa sem ser preciso eu te dar um banho, como tu disseste, um banho de macumba, que aqui em casa é banho de Axé, ai tu vai levar esse tempo pra se organizar, tu vai pagar tudo o que tu deve até o mês de agosto, quando for setembro tu não és católica mas tu vais comprar um sapato, uma roupa talvez os teus filhos queiram é possível ai tu guarda pra final do ano e a partir desse momento em diante tu vai passar a reservar o teu dinheiro para fazer a tua casa, te organiza. Ela organizou do jeito que eu disse, quando tu for receber o 13º tu não traz ai pra tua casa, tu já vai com o orçamento na estância pega um profissional faz um orçamento de tudo o que tu vai gastar, não te esquece da mão de obra, do material e tu compra o material pra fazer a tua casa, vou te mostrar que tu vai passar o ano na tua casa, ela seguiu tudo aquilo que eu falei pra ela. Quando chegou no final do ano, estava numa casa de madeira macheada, toda bonitinha, passou ano na casa dela não foi preciso banho, não foi preciso ela ir até a minha casa, não foi preciso ela sair da religião dela pra vim pra minha casa, nem mentir pra dizer que ela estava precisando de banho uma coisa assim, nos damos uma palavra amiga isso é um tipo de acolhimento, você aconselhar, escutar a pessoa e orientar essas pessoa a fazer coisas que vai dar certo, sem ser preciso você envolver, botar a você vai jogar búzio pra mim ou uma carta pra eu poder ver se tu vai fazer uma carta não, só pra mim te dar um banho e te cobrar tanto. Eu acho que a palavra amiga assim um conselho, uma orientação sabe que muitas vezes vale tanto se você for fazer um trabalho.”

Tatetu Kalengunzu/ José de Arimatéia “Eu era da casa do Edilson, (...) o Painho, que era de Lembá também, e eu era da Mina na casa dele -, entrei na casa dele em 89 e ai em 95 eu recolhi com pai Edson, que tinha recolhido e iniciado ele, e ai com 6 anos que eu estava lá eu recolhi também, ai foi que eu entrei no Angola - iniciei em 95 e há 5 anos atrás eu recebi o meu Kijingo, né!? já com 10 anos de iniciado eu recebi Kijingo , e eu estou hoje com 15 anos de feitura na Angola, e não troco também a minha nação por nada, adoro a Angola e agora mais ainda, e eu garanto a vocês que vou ter mais força ainda pra buscar mais conhecimentos, sabe!”

Táta Tauadirá/ Edson Santana “Tem todas essas histórias da gente começar a obrigação dia de sexta-feira de madrugada, e terminava de manhã: 6h da manhã, quando eu voltava para o trabalho E aí chegou um tempo que eu disse eu não quero mais e acabou, eu não quero mais essa vida de estar trabalhando e fazendo obrigação. (...) Aí eu decidi fazer por ele isso, no caso o seu Walter fazia tudo pelo santo.(...) e aí muitas das coisas começaram a se definir, uma das coisas foi a minha profissão, hoje em dia sou professor de música num conservatório (...). É na música, no conservatório e outras coisas mais, que eu estudei pela vida. Eu disse assim: caramba se eu tivesse visto isso há mais tempo, eu já tinha feito dessa maneira... mas, o que eu vou querer dizer é que é o próprio orixá que nos encaminha! “

Táta Kinamboji/ Arthur Leandro “Mas enfim, então eles nos dão esse poder maléfico e nos atacam nas emissoras de rádio e de televisão das quais eles são donos, e ai a pergunta: como visibilizar? A pergunta deveria ser como resistir! Nós sofremos intolerância como todo mundo que tá sentado nesta roda, nós sofremos intolerância, nós sofremos racismo institucional (…) Porque para a justiça brasileira nunca é preconceito contra nós! A Constituição nos dá o direito de culto, o direito de consciência religiosa mas o Estado nos reprime, reprime as nossas práticas religiosas e quando a gente reclama alegam ignorância e o motivo é que eles “não sabiam como acontece o culto afro-religioso”. Eles nunca assumem a responsabilidade sobre o ato deles.”

Uma cartografia para a visibilidade do nosso povo!

“A proposta do projeto é a visibilidade para as comunidades tradicionais, então a gente vem desde maio [de 2010] nesse projeto: mapeando, buscando visibilizar nossa cultura tradicional.” - Mametu Nangetu apresentando o capítulo da Nação Angola.
A "Cartografia Social dos Afrorreligiosos em Belém do Pará - religiões afro-brasileiras e ameríndias da Amazônia: afirmando identidades na diversidade" foi lançado durante a XVI Feira Panamazônica do Livro, a mesa de autógrafos contou com a presença dos pesquisadores.
Este projeto foi financiado pelo Programa Nacional de Patrimônio Imaterial do IPHAN, e contou com a participação de pesquisadores das mais variadas formações acadêmicas e vinculados a diferentes universidades, e a categoria “pesquisadores” contemplou tanto formações acadêmicas quanto afrorreligiosos com suas formações, saberes e conhecimentos tradicionais. O saber acadêmico e o saber tradicional coordenando a pesquisa juntos.
Como produto deste trabalho temos um mapa dos afro-religiosos em Belém e este livro, que foi construído a partir de entrevistas em encontros e oficinas ocorridas entre abril de 2010 e fins de 2011 com o objetivo de coletar informaçnoes para produzir o mapa e o livro, geo-referenciando informações que revelam a coletividade e o dinamismo das identidades das nações afrorreligiosas e da Pajelança em Belém do Pará.
A pesquisadora Camila do Valle salientou a participação de lideranças de cada uma das nações representadas na cartogarfia: Angola, Jeje Savalu, Ketu, Mina Jeje Nagô, Umbanda e Pajelança, atribuindo à essas lideranças o papel fundamental de decisão sobre as informações reunidas e os resultados da pesquisa. explicou que o livro contém “os afetos, conflitos, modos de convivência e formas de ocupação e reprodução, no território, dessas identidades coletivas centradas na religiosidade”, e que o mapa tem a localização de terreiros e informações importantes para a compreensão das prátcias das religiões afro-amazônicas presentes na zona metropolitana de Belém como o levantamento detalhado dos espaços sagrados - templos, casas, terreiros, tendas e searas, além da identificação dos locais de coleta de folhas nas matas e de compra de ervas, locais onde a realização de ritos religiosos são tensas e até as situações de conflitos e intolerância religiosa. Camila diz ainda que “podemos dizer que o mapa, entendido como um mapa narrativo, tem aqui, neste livro, espaço para expandir seus elementos de narratividade”. E que ambos, livro e mapa, “são documentos que escolhem, portanto, o critério da narratividade e, portanto, do dinamismo da ação para revelar a construção de sua identidade cultural.” Esta identidade cultural, entendida como patrimônio cultural imaterial, ultrapassa as fronteiras dos municípios diretamente envolvidos na pesquisa, já que as narrativas remetem a outros espaços geográficos e a outros tempos: formas não redutoras de pensar os pertencimentos e os processos de institucionalidade.
Mametu Nangetu disse que o trabalho com a Nação Angola foi gratificante porque lhe deu a oportunidade de visitar os terreiros e conhecer mais profundamente as condições de vida de seu povo. Lembrou a distinção com que foi recebida em cada casa de culto e reafirmou a importância de sabermos quem nós somos e onde estamos, e fez referência à necessidade de afirmação da identidade afro-religiosa para a visibilidade dos terreiros e para o combate à intolerância religiosa.

A luta contra o racismo e formas correlatas de preconceito e discriminação.
“A intolerância religiosa é o novo racismo e muitas comunidades que enfrentaram discriminações raciais durante décadas são agora perseguidas por causa de sua religião”. (Mark Lattimer, diretor da MRG - Minority Right Groups International )

A proclamção da república, no século XIX, separou o estado da religião católica e já na primeira constituição brasileira constava o artigo que garantia a liberdade de culto, mas ao contrário do que se pensa, o que aconteceu com as religiões afro-brasileiras foi o acirramento da repressão e a tentativa de eliminar essas práticas do território brasileiro.
É nesse contexto que os povos e comunidades tradicionais de terreiros das sete nações de origem afro-brasileira que atuam na Região Metropolitana de Belém travam uma luta histórica contra o preconceito e a discriminação, inúmeros são os casos de racismo pela intolerância religiosa que ocorrem cotidianamente na capital paraense. Atitudes preconceituosas são histórias sem fim para quem segue religiões afrodescendente. Luiz Augusto Loureiro Cunha (Pai Tayandô/ Acaoã-Unimaz) recorda dos períodos difíceis das comunidades tradicionais de terreiro no Pará: 1908, quando mães e pais de santo eram proibidos de bater tambor; na década de 30 (1930), lembrada como a maior repressão contra os praticantes das religiões remanescentes da África; e o período da ditadura militar (1964 a 1985), quando foram registradas inúmeras prisões sob alegações diversas. "No dia 18 de março de 1908, a mãe de santo “Doca” foi presa porque batia tambor para Dom José. Ela chegou a ser levada para a delegacia, ficou na cela e depois foi liberada. Mesmo assim, ela voltou para o terreiro e continuou a bater tambor para os seus deuses", conta. Por causa desse gesto de coragem, o dia 18 de Março é lembrado pelos povos e comunidades tradicionais como o Dia Municipal e Estadual da Umbanda e dos Cultos Afros-brasileiros. Noche Navakoly (Mãe Doca) é o símbolo da resistência dos Povos de Tereiros de Belém. Mãe Doca era natural de Codó/MA, filha de santo do africano Manoel-Teu-Santo, seu Vodum é Nana e Toy Jotin, mas também recebia Seu Inambé. Ela foi presa várias vezes e ainda assim não desititu da luta pelo direito à consciencia relgiosa.
Para Mametu Nangetu a mídia fortalece o preconceito existente contra as religiões afro-brasileiras. "Não querem nos respeitar como povos e comunidades tradicionais de terreiro e a mídia reforça esta intolerância" e ao contrário do que se pensa, enfatiza a sacerdotisa, "nós não adoramos o satanás, mas os orixás, que são a natureza". Ela conta que o preconceito é tão grande, ao ponto de quando ela vai trabahar na coleta de ervas na estrada da Ceasa sofre discriminação. Os maiores autores são os vigilantes de prédios públicos, pessoas humildes carregadas de uma carga cultural preconceituosa. "Nunca me expulsaram do local, mas já disseram que eu estaria sendo convidada a me retirar das proximidades do prédio, onde coletava as ervas", relata.

Conhecimento é arma para defesa contra perseguição e promoção do respeito à diversidade religiosa.
A publicação dos resultados desse trabalho revela as características próprias de cada nação, seus locais, formas de cultos e deuses. O mapa aponta, por exemplo, que a nação Umbanda chegou ao Pará por volta da década de 30, trazida pela "Mãe" Maria Aguiar. A nação foi resultado do cruzamento de linhas (sincretismo interno) que acabaram formando uma religião com suas próprias características, agregando-se Pajés e Caruanas, Encantados e Deuses para resultar em uma Umbanda amazônida. Durante uma oficina de Cartografia, realizada em junho de 2010, Mãe Vanda desabafou lembrando que "a Umbanda resiste ao preconceito e reafirma a sua tradição através desse sincretismo"
"A Cartografia Social dos Afrorreligiosos em Belém é o que o governo negou aos afrorreligiosos, que representam uma parcela da população em cerca de 10% e, no entanto, não se estima no censo anual feito pelos centros de pesquisa populacional", afirma Táta Kinamboji, um dos executores do mapa que é sacerdote e professor universiteario, Ele conta, por exemplo, que por não haver educadores afro-religiosos nas instituições de ensino, seja público ou privado, o estigma de que os praticantes das religiões de origem africana continua sendo visto como adoradores de deuses satânicos. Na opinião dele, como educador, somente a partir do momento em que a religião for discutida sem preconceito nas escolas, o fato poderá mudar culturalmente, garantindo assim, o direito das pessoas se manifestarem sem medo de serem identificadas.
Táta Kinamboji ressalta que as comunidades tradicionais de terreiros tem produzido material que pode sim ser utilizado pelos professore para a difiusão de sconhecimentos sobre a cosmologia religiosa afro-amazônica, destaca os filmes de Luiz Arnaldo Campos, especialmene o "Chama Verequete" (dirigido em parceria com Rogeerio Parreira) e o "A descoberta da Amazônia pelos Turcos Encantados", que ganhou o DOCTV-PA de 2005, e a fascículo 3 da cartilha do Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia, Movimentos Sociais e Conflitos nas cidades da Amazônia, e argumenta que se as escolas ainda não utilizam esses documentos como material didático é porque a Lei não consegue vencer o preconceito das pessoas que deveriam aplica-la.
Mas para Mametu Nangetu, o que importa saber é se os professores das escolas vão mesmo utilizar os documentos da religiosidade afro-amazônicas para difundir o conhecimento sobre os povos de terreiros, ou se o preconceito e a intolerância religiosa ainda vai tentar confinar estas publicações em prateleiras e arquivos escondidos nos fundos das bibliotecas...

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

XVI Feira Panamazônica do livro lança "Cartografia Social dos Afrorreligiosos em Belém do Pará".



Lançamento de de livros
- 25/09/2012 - LOCAL: ESTANDE UNAMAZ/NAEA

. Cartografia Social dos Afrorreligiosos em Belém do Pará,

livro organizado pela profa. Camila do Valle e Afrorreligiosos de Belém do Pará; e

. Cartilha da Liberdade, de Mãe Nalva.


Programação de conversas e conferências:

24/09/2012

10H30 - CONFERÊNCIA-HOMENAGEM: Trajetória e Poesia de Léon Gontran Damas

CONFERENCISTA: ROSA ACEVEDO MARIN

. Recitação de poemas do Autor por Kátia Cardela, com fundo musical de percussão.



14H00 - MESA 1: Narrativas de encantados nas teias de territorialidade
DEBATEDORES:

. Cynthia Carvalho Martins (Antropóloga - UEMA);

. José Luís Pinto Jr. (QUILOMBO DE SACOP);

. Pai Luis Tayandô (Associação Cultural Afrobrasileira
de Oxaguiã Acaoã).

MEDIAÇÃO: Marinilce Oliveira Coelho



25/09/2012
10H30/12H00 - MESA 2: Concepções sobre a natureza: o patrimônio imaterial

DEBATEDORES:

. Sérgio Cohn;

. Ernani Chaves (UFPA);

. Camila do Valle (UFRRJ).

MEDIAÇÃO: Rosa Acevedo Marin


14:00H S 16:00H - MESA 3: Amazônia: Literatura, fronteira e memória

DEBATEDORES:

. Willi Bolle (Usp);

. Josebel Fares (Unama);

. Ewerton Francisco dos Santos (UFPA).

MEDIAÇÃO: Rosa Acevedo Marin


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Convite para o lançamento do livro Cartografia dos afrorreligiosos em Belém do Pará



 
 
Programa de Mestrado em Comunicação, Linguagens e Cultura da Universidade da Amazônia (UNAMA) convida para o lançamento do livro Cartografia dos afrorreligiosos em Belém do Pará
 
Quinta-feira, dia 20 de setembro

Horário: 19h30.
Local:UNAMA - Campus Alcindo Cacela
End. Av. Alcindo Cacela, 287 – Belém / Pa
Sala de Vídeo conferência 4º. andar Bloco E
Apresentação
Este livro foi construído a partir de entrevistas e oficinas ocorridas entre abril de 2010 e fins de 2011 com o objetivo de produzir um mapa e um livro geo-referenciando - informações que revelam a coletividade e o dinamismo das identidades das nações afrorreligiosas e da Pajelança em Belém do Pará.
Os afetos, conflitos, modos de convivência e formas de ocupação e reprodução, no território, dessas identidades coletivas centradas na religiosidade também fizeram parte do mapa realizado ao longo do tempo de realização deste projeto. Aliás, podemos dizer que o mapa, entendido como um mapa narrativo, tem aqui, neste livro, espaço para expandir seus elementos de narratividade. Tanto este livro como o mapa, que foram resultados do projeto Cartografia Social dos Afrorreligiosos de Belém do Pará, são documentos que escolhem, portanto, o critério da narratividade e, portanto, do dinamismo da ação para revelar a construção de sua identidade cultural.
Esta identidade cultural, entendida como patrimônio cultural imaterial, ultrapassa as fronteiras dos municípios diretamente envolvidos na pesquisa, já que as narrativas remetem a outros espaços geográficos e a outros tempos: formas não redutoras de pensar os pertencimentos e os processos de institucionalidade. É necessário sublinhar que este projeto, ao ter sido executado no âmbito do Programa Nacional de Patrimônio Imaterial do IPHAN, com a participação de pesquisadores das mais variadas formações acadêmicas e vinculados a diferentes universidades, demonstra a importância e a complexidade da identidade cultural dos grupos aqui participantes. É mister acrescentar que a categoria “pesquisadores” neste projeto contemplou tanto formações acadêmicas quanto afrorreligiosos com suas formações, saberes e conhecimentos tradicionais.
Camila do Valle Profªadjunta da UFRRJ (Departamento de Letras, Leafro/PNCSA)
 
PS: Haverá lançamento do livro na Feira Pan-Amazônica no dia 25, entre 10h30 e 13h.

domingo, 12 de agosto de 2012

Lançamento do livro do Mapeamento das Comunidades Tradicionais de Terreiros lotou o auditório da SAGRI.

Mãe Nalva (na tribuna) e Mametu Nangetu, representaram os Povos e Comunidades de Terreiros do Pará.

Mãe Nalva d'Oxum, que é uma das coordenadoras da pesquisa, e Mametu Nangetu, coordenadora do Fórum de Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Tradicionais de Terreiros do Pará, representaram os Povos e Comunidades de Terreiros na cerimônia, e ressaltaram a importância desta e de outras pesquisas como forma de dar visibilidade para os povos e comunidades tradicionais de terreiros, e para ambas as sacerdotizas, a expectativa é ver esse trabalho traduzido em aplicação de políticas públicas afirmativas para povos de terreiros do Pará.
A ministra Luiza Bairros, da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República, veio pessoalmente para o evento e teve a oportunidade de apresentar uma síntese da pesquisa  para as comunidades de terreiros da zona metropolitana de Belém, assim como apresentar indicativos do como o governo federal, e a SEPPIR, pretendem se basear nessa pesquisa para poder propor ações que resultem em impactos positivos para os povos de terreiros.
A ministra Luiza Bairros falou sobre as políticas de igualdade racial.

O acesso aos benefícios das políticas de promoção da igualdade racial já existentes foi uma preocupação no discurso de Luiza Bairros, que usou como exemplo as políticas de cotas raciais nas universidades e convocou os presentes a acessarem as cotas para o ingresso no ensino superior.
As comunidades de terreiros de Belém lotaram o auditório da Secretaria Estadual de Agricultura do Pará/ SAGRI, para o lançamento do livro "Alimento: direito sagrado", resultado da pesquisa socioeconomica e cultural dos povos e comunidades tradicionais de terreiros sob organização de Luana Lazzari Arantes e Monica Rodrigues.
Lideranças de terreiros lotaram o auditório para o lançamento do livro.

Todos os presentes no lançamento receberam um exemplar do livro, que também será distribuído para bibliotecas e instituições de ensino e pesquisa.
Todos os presentes receberam um exemplar.

A pesquisa foi desenvolvida pela Associação Filmes de Quintal com a participação das comunidades de terreiros, e é uma realização do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome/ MDS, com a Secretaria O Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) junto a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em parceria com a Fundação Cultural Palmares (FCP) e a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), que realizaram o Mapeamento das Comunidades Tradicionais de Terreiro em Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife e Belém.
A diversidade das matrizes religiosas Afro-amazônicas se fez representar no evento.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Alimento: direito sagrado - lançamento do livro do Mapeamento das Comunidades Tradicionais de Terreiros.



O Fórum Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos de Comunidades Tradicionais de Terreiro vem convidar a todos os Afro-religiosos, simpatizantes e amigos, para realização do evento de lançamento do livro do Mapeamento das Comunidades Tradicionais de Terreiros que teve como objetivo principal dados para promoção de políticas publicas de segurança alimentar e nutricional e melhoria de qualidade de vida nas comunidades tradicionais de terreiro.
LOCAL: Auditório da SAGRI, Tv. do Chaco, 2232 - Belém/ PA.
DATA: 10-08-2012
HORA: 16H


OBS:REPASSEM ESTE CONVITE A TODOS QUE CONTRIBUIRAM DE ALGUMA FORMA PARA REALIZAÇÃO DESTE PROJ EETO E JUNTOS MOSTRAREMOS QUE SOMOS MUITOS E LUTAREMOS PARA QUE NOSSOS DIREITOS SEJAM SEMPRE GARANTIDOS

sábado, 17 de março de 2012

Ultimos ajustes para o livro do projeto “Cartografia Social dos Afro-religiosos em Belém do Pará, religiões afro-brasileiras e ameríndias da Amazônia: afirmando identidades na diversidade".



A pesquisadora e professora da UFRRJ, Camila do Vale se reuniu com as lideranças de terreiros que coordenaram os trabalhos em cada uma das nações presentes na pesquisa de mapeamento de terreiros da zona metropolitana de Belém, e junto com outras lideranças que atenderam ao chamado para participar da verificação das informações que vão constar no livro resultante do projeto “Cartografia Social dos Afro-religiosos em Belém do Pará, religiões afro-brasileiras e ameríndias da Amazônia: afirmando identidades na diversidade".
Todos os presentes puderam contribuir para as correções que se fizeram necessáris, e em breve estaremos divulgando a data do lançamento da publicação que tem o financiamento do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).