Belém/PA – Guarda Municipal constrange sacerdotes que realizavam ritual de Candomblé de Angola nas margens da baía do Guajará.
Na noite de quarta-feira, 21 de julho de 2010, a guarda municipal de Belém protagonizou mais um caso de racismo institucional e de intolerância contra as religiões afro-amazônicas.
Próximo das 23 horas um grupo de sacerdotes do Mansu Nangetu dirigiu-se a área do “Projeto Ver-o-rio”, nas margens da baía do Guajará, para em suas águas realizar a cerimônia de oferenda do Urupim – parte dos ritos de Candomblé de Angola –, quando foi abordado por um guarda municipal que pediu para falar com um responsável pelo grupo.
O guarda informou aos sacerdotes que naquele local era proibido e despejo de lixo, informação recebida com alegria pelo grupo que tem em sua crença o respeito a natureza e a preservação do meio ambiente, e depois identificou que os religiosos haviam desrespeitado a lei e jogado lixo no local.
Nesse momento, Arthur Leandro, conhecido pelo nome sacerdotal de Táta Kinamboji, se identificicou e falou em nome dos membros do Mansu Nangetu explicando que o representante do município havia presenciado um ritual de oferenda religiosa praticado em águas brasileiras há pelo menos cinco séculos, disse, ainda, que a constituição da república federativa do Brasil garante a liberdade de culto e de crença religiosa, e que a oferenda era composta de material orgânico e biodegradável e que tudo o que havia na oferenda poderia servir de alimento a fauna do estuário que forma o bioma local.
Irredutível em sua interpretação de despejo de lixo, o guarda municipal insistiu em caracterizar o ato como desrespeito a lei e a ordem de seus superiores de impedir o lançamento de lixo nas águas do Guajará. Novamente Táta Kinamboji explicou tratar-se de um ritual, disse que era titular do pleno do Conselho Municipal de Negros e Negras e que conhecia a lei, e que o que havia de errôneo naquele momento era a interpretação do poder municipal que havia compreendido um ritual afro-religioso como um ato criminoso.
Novamente o guarda municipal insistiu na sua interpretação e pediu que o grupo permanecesse escutando seus argumentos. Táta Kinamboji respondeu que a forma com que o guarda conduzia o debates tornava aquela conversa improdutiva e desnecessária, e forneceu endereços para continuar a debater o assunto, desde que em outros termos, pois nenhum argumento o convenceria de que uma oferenda de ritual religioso fosse lixo, e que o tratamento a ele dispensado desrespeitava sua crença religiosa.
Foi então que o guarda chamou outros de sua companhia e em atitude ameaçadora anotaram a placa do carro em que transportava os religiosos, então Táta Kinamboji fotografou os representantes do poder municipal, que escondiam suas identificações obrigatórias, e registrou o caso sob o número 00011/2010.006955-7 de um Boletim de ocorrência na delegacia da Pedreira.
Nota do Mansu Nangetu:
Os fatos foram imediatamente informados ao Secretário Executivo do Conselho Municipal de Negros e Negras, sr. Antônio do Amaral Ferreira, também afro-religioso, e esperamos uma atitude enérgica da CMNN junto a Prefeitura Municipal de Belém.
Agradecemos o pronto apoio, orientação e oferta de acompanhamento do caso por parte do sociólogo Domingos Conceição, Coordenador de Politicas de Promoção da Igualdade Racial da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Governo do Estado do Pará.
Mais informações com Táta Kinamboji (Arthur Leandro) pelos fones: (091) 30872755 ou 81982430
links externos:
http://www.iteia.org.br/arthur-leandro-chamada-conferencia-igualdade-racial
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Os comentários abaixo estão no blog do Diário do Pará
http://www.diariodopara.com.br/not-cm.php?idnot=101218
- Aderson disse: Comentário postado em 23/07 Sexta-feira às 14:32h
"Esse tipo de intolerância religiosa começa dentro da religião. Com certeza esses guardas são católicos ou evangélicos e é justamente aí que começa o preconceito com as demais religiões, principalmente entre os evangélicos. que insistem em se chamar de cristãos, mas insistem em desrespeitar o resto do mundo, coisa que Jesus, pelo que se ler sobre ele, nunca fez." - Eu mesmo disse: Comentário postado em 23/07 Sexta-feira às 06:30h
"Candomblé ou Macumba? Esse denominação religiosa e seus "rituais" sempre jogaram lixo nos rios e nas ruas. APOIO TOTAL a guarda municipal, não foi preconceituosa, estavam apenas fazendo seu trabalho em favor da lei! Já cansei de ver esses religiosos jogando comida fora no mar." - Isabela do Lago disse: Comentário postado em 22/07 Quinta-feira às 20:00h
"Acredito que se a guarda municipal fosse treinada, tivesse orientação para agir corretamente, isto não teria acontecido. Mas a realidade é que aconteceu, e de posse do poder de coagir, os guardas não deram atenção as explicações do grupo.
Ainda os responsáveis pela guarda dizem não tomaram conhecimento do ocorrido e que vão apurar, estas pessoas foram humilhadas publicamente!
Este tipo de violência precisa ser punida, e trabalhar no sentido de prevenir novas atitudes.
" - Angelo Madson disse: Comentário postado em 22/07 Quinta-feira às 14:28h
"Mais uma demonstração vergonhosa de Racismo institucional e intolerãncia religiosa, praticada desta vez pela Guarda Municipal de Belém.
Francamente, comparar uma cerimônia de oferenda do Urupim com o ato de atirar lixo no rio é de uma estúpidez tamanha que não corresponde ao comportamento de um agente de segurança pública.
Creio que uma disciplina que oborde a liberade religiosa e de pensamento deva fazer parte do teinamento da Guarda Municipal. Do contrário é melhor que a guarda nem exista!
" - Clementino Junior disse: Comentário postado em 22/07 Quinta-feira às 14:27h
"É inadimissível que em um momento que os cultos Iorubás se adaptaram às questões ambientais, e em função de sucessivas arbitrariedades por parte de civis preconceituosos, arbitrariedades como esta partam de elementos que deveriam proteger a sociedade (da qual os reliosos fazem parte e são contribuintes) e não ter seu culto, que já é patrimônio imaterial brasileiro, tratado como "lixo" ou qualquer outra terminologia que diminua esta ou qualquer outra religião.
A guarda municipal ao invés de tratar o assunto de forma corriqueira, deveria dar exemplo, para que arbitrariedades como estas não aconteçam com aqueles que compartilham de sua fé ou de seu convívio, pois só sabe o que é a intolerância quem passa por isto ao menos uma vez, no que lhe é mais caro." - aslan cabral disse: Comentário postado em 22/07 Quinta-feira às 14:18h
"De fato é preocupante esse tipo de desrespeito com a crenças e religiões de cada um.Acho que é uma pauta que poderia ser aprofundada pelo jornal, até para deixar claro para todos os lados.E se deve-se pedir uma autorização para esse tipo de coisas, essa nunca poderá ser negada, pois ninguém tem direito de aprovar ou reprovar algo que, como a religião, é escolha de cada um." - Netto disse: Comentário postado em 22/07 Quinta-feira às 14:18h
"Falta às forças policiais o devido preparo para lidar com a comunidade. Falta capacitação em Direitos Humanos, diversidade e etnicidade. Uma polícia (ou guarda municipal) bem preparada não comete gafes nem crimes lamentáveis como este. Acredito que o fundo preconceituoso está no fato de que a formação judaico-cristã de nossa sociedade (e a rigor, da polícia) encara as manifestações religiosas afro-brasileiras como algo diabólico e maléfico. Esquecem-se, entretanto, que nosso Estado é, acima de tudo, laico. O agente que desrespeita rituais afro é o mesmo que espanca travestis, humilha prostitutas e moradores de rua e abusa de meninos nos semáforos. O respeito à diversidade deve ser observado em todos os atos do poder público, e episódios criminosos como este devem ser denunciados e punidos com rigor." - Mametu Nangetu disse: Comentário postado em 22/07 Quinta-feira às 13:30h
"Ontem nós do Mansu Nangetu sofremos uma grande intolerância da guarda municipal de Belém, e eu já venho falando que precisamos reunir com os comandos de polícia para criar cursos que ensinem a polícia a tratar com respeito os sacerdotes da religiosidade afro-brasileira, por que nós cultuamos a natureza e sabemos que temos que preserva-la para poder continuar a cultuar.
Tem a lei que da direito de nós cultuarmos, e é a falta de conhecimento dos policiais é que faz com que a gente passe por essas situações vergonhosas em público, além de meu filho ter que ocupar seu tempo em delegacias de polícia e passar a madrugada remoendo raiva quando nossa programação era rezar, descansar e estar bem para cumprir os rituais de iniciação necessários para a grande festa para apresentar os novos sacerdotes no próximo sábado.
Nós queremos ser respeitados.
Mametu Nangetu " - Luiz Leite disse: Comentário postado em 22/07 Quinta-feira às 12:58h
"Essa Guarda Municipal tem o perfil da nossa prefeitura: despreparada, desonesta e preconceituosa."








