domingo, 18 de dezembro de 2011

Em nome do ensino sem preconceitos, Povos Tradicionais de Terreiros produzem cartografia para ser utilizado nas escolas.

Domingo passado, dia 11/12/2011, na sede do IPHAN em Belém, aconteceu o pré-lançamento do mapa da “Cartografia Social dos Afro-religiosos em Belém do Pará, religiões afro-brasileiras e ameríndias da Amazônia: afirmando identidades na diversidade", um mapa com a localização de terreiros e informações importantes para a compreensão das prátcias das religiões afro-amazônicas presentes na zona metropolitana de Belém.
A equipe de pesquisadores foi composta pelas lideranças de terreiros de Belém e Ananindeua.

Com a pesquisa pronta, o pré-lançamento do mapa, e a notícia de que o livro está à caminho da gráfica, o desafio agora é romper o preconceito dos professores e do corpo técnico e administrativo da rede de ensino para convence-los a utilizar os produtos resultantes dessa pesquisa na aplicação da Lei 10.639/03 nas escolas do estado do Pará.
Táta Kinamboji ressalta que as comunidades tradicionais de terreiros tem produzido material que pode sim ser utilizado pelos professore para a difiusão de sconhecimentos sobre a cosmologia religiosa afro-amazônica, destaca os filmes de Luiz Arnaldo Campos, especialmene o "Chama Verequete" (dirigido em parceria com Rogeerio Parreira) e o "A descoberta da Amazônia pelos Turcos Encantados", que ganhou o DOCTV-PA de 2005, e a fascículo 3 da cartlha do Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia, Movimentos Sociais e Conflitos nas cidades da Amazônia (clique aqui para baixar a cartilha), e argumenta que se as escolas ainda não utilizam esses documentos como material didático é porque a Lei não consegue vencer o preconceito das pessoas que deveriam aplica-la.
Povos de terreiros se reunem para construir conhecimento sobre a religiosidade afro-amazônica.
O livro e o mapa da pesquisa “Cartografia Social dos Afro-religiosos em Belém do Pará, religiões afro-brasileiras e ameríndias da Amazônia: afirmando identidades na diversidade" serão lançados em 18 de março de 2012, e com isso os Povos Tradicionais de Terreiros demonstram sua união na produção de conhecimentos e de material para ser utilizado pelas escolas na aplicação da Lei,

E mais uma vez fica a pergunta, os professores vão mesmo utilizar esse material  nas escolas?


Segue abaixo o texto de matéria sobre o preconceito contra as práticas religiosas afro-amazônicas nas escolas de Belém que foi publicado no Amazônia Jornal de domingo, dia 18/12/2011 - ver publicação original aqui.


MAPA QUER FIM DE PRECONCEITO
Cartografia elaborada por pesquisadores identifica locais de realização dos cultos afrobrasileiros




(EDNA NUNES )


O mapa vai dar visibilidade às religiões afrobrasileiras cultuadas em Belém e Ananindeua e denominadas com várias nações: Angola, Jeje Savalu, Ketu, Mina Jeje Nagô, Umbanda e Pajelança. O trabalho foi coordenado pela professora de gradualção da Universidade Rural do Rio de Janeiro, Camila do Valle, especialista em diversidade étnica. A publicação revela as características próprias de cada nação, seus locais, formas de cultos e deuses.
O mapa aponta, por exemplo, que a nação Umbanda chegou ao Pará por volta da década de 30, trazida pela "Mãe" Maria Aguiar. A nação foi resultado do cruzamento de linhas (sincretismo interno) que acabaram formando uma religião com suas próprias características, agregando-se Pajés e Caruanas, Encantados e Deuses para resultar em uma Umbanda amazônida. Durante uma oficina de Cartografia, realizada em junho de 2010, Mãe Vanda desabafou lembrando que "a Umbanda resiste ao preconceito e reafirma a sua tradição através desse sincretismo".
Mãe Vanda e Mãe Kátia organizam as informações da Umbanda (reunião no palacete Bolonha em 29/04/2010 - foto de Táta Kinamboji/ Projeto Azuelar - Instituto Nangetu/ Ponto de Mídia Livre)..

Os povos e comunidades tradicionais de terreiros de várias nações de origem afro-brasileira que atuam na Região Metropolitana de Belém (RMB) travam uma luta histórica contra o preconceito. Este ano, eles ganharam um aliado especial: a "Cartografia Social dos Afrorreligiosos em Belém do Pará - religiões afro-brasileiras e ameríndias da Amazônia: afirmando identidades na diversidade", que vai ajudar no entendimento e importância dos cultos. O documento foi construído com o financiamento do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e pré-lançada no dia 11 deste mês. A expectativa é que o mapa contribua para redução da intolerância religiosa.


A pesquisa promoveu a auto-cartografia dos povos e comunidades tradicionais, o conhecimento foi produzido pelos próprios povos e comunidades tradicionais - Na foto o Pai Armando de Bessen acrescenta inflrmações da Nação Ketu, com a supervisão de Mãe Nerê e Pai Walmir (reunião no palacete Bolonha em 29/04/2010 - foto de Táta Kinamboji/ Projeto Azuelar - Instituto Nangetu/ Ponto de Mídia Livre).




"A Cartografia Social dos Afrorreligiosos em Belém é o que o governo negou aos afrorreligiosos, que representam uma parcela da população em cerca de 10% e, no entanto, não se estima no censo anual feito pelos centros de pesquisa populacional", afirma um dos executores do mapa, o professor universitário e fotógrafo Arthur Leandro ou "Tatá Kinamboji", como é conhecido socialmente entre os religiosos afrobrasileiros. 
Além da localização dos terreiros no mapa da cidade, depoimentos de histórias pessoais e memória de lutas fazem parte da cartografia (roda de conversa com os angoleiros em 29/12/2010 - foto de Táta Kinamboji/Projeto Azuelar - Instituto Nangetu/Ponto de Mídia Livre).
Ele conta, por exemplo, que por não haver educadores nas instituições de ensino, seja público ou privado, o estigma de que os praticantes das religiões de origem africana continua sendo visto como adoradores de deuses satânicos. Na opinião dele, como educador, somente a partir do momento em que a religião for discutida sem preconceito nas escolas, o fato poderá mudar culturalmente, garantindo assim, o direito das pessoas se manifestarem sem medo de ser identificada.
Comunidade do Terreiro de Noche Navakoly (Rosa Viveiros, conhecida como Mãe Doca) - Terreiro de Nagô Cacheu fundado em 18 de março de 1891 na Tv. Humaitá próximo à Duque de Caxias, o terreiro enfrentou a polícia e todos os tipos de preconceito em nome do direito ao culto religioso (reprodução de foto de 1917).
História mostra evolução das práticas

 Atitudes preconceituosas são histórias sem fim para quem segue religiões afrodescendente. Luiz Augusto Loureiro Cunha (Pai Tayandô Acaoã-Unimaz) recorda dos períodos difíceis das comunidades tradicionais de terreiro no Pará: 1908, quando mães e pais de santo eram proibidos de bater tambor; na década de 30 (1930), lembrada como a maior repressão contra os praticantes das religiões remanescentes da África; e o período da ditadura militar (1964 a 1985), quando foram registradas inúmeras prisões sob alegações diversas. 

"No dia 18 de março de 1908, a mãe de santo Doca foi presa porque batia tambor para Dom José. Ela chegou a ser levada para a delegacia, ficou na cela e depois foi liberada. Mesmo assim, ela voltou para o terreiro e continuou a bater tambor para os seus deuses", conta. Por causa desse gesto de coragem, o dia 18 de Março é lembrado pelos povos e comunidades tradicionais como o Dia Municipal e Estadual da Umbanda e dos Cultos Afros-brasileiros. 
Noche Navakoly (Mãe Doca) é o símbolo da resistência dos Povos de Tereiros de Belém. Mãe Doca era natural de Codó/MA, filha de santo do africano Manoel-Teu-Santo, seu Vodum é Nana e Toy Jotin, mas também recebia Seu Inambé. Ela foi presa várias vezes e ainda assim não desititu da luta pelo direito à consciencia relgiosa (reprodução de foto de 1917).

Apesar de toda a intolerância, Pai Luiz deixa claro que é uma ação que não leva os povos e comunidades tradicionais de terreiro a cultivar a violência contra os que seguem religiões diferentes das deles, porém, isso não quer dizer que não buscarão "armas" para se defenderem e, por este motivo, a cartografia é um instrumento para fazer com que todos - adolescentes, adultos e idosos de religiões afrobrasileiras - se baseiam de informações capazes de fazer valer o seu papel como cidadão brasileiro. O conselho que ele dá, além da aquisição de conhecimento, é estar em constante diálogo com outras religiões, tanto as cristãs como as não cristãs.
Mãe de santo é discriminada quando vai catar ervas na Ceasa
Dona Oneide Monteiro Rodrigues, que atende pelo nome social Memetu Nangetu (que significa mãe da raiz molhada), informa que o preconceito pode estar associado à desinformação. Além disso, segundo ela, a mídia fortalece o preconceito existente contra as religiões afro-brasileiras. "Não querem nos respeitar como povos e comunidades tradicionais de terreiro e a mídia reforça esta intolerância", lamenta. Ao contrário do que se pensa, enfatiza a sacerdotisa, como assim é identificada por seus seguidores, "nós não adoramos o satanás, mas os orixás, que são a natureza".
Táta Kasuleka (Mansu Nangetu)  em coleta de folhas na mata urbana de um ramal da estrada da CEASA.
 Mametu Nagetu conta que o preconceito é tão grande, ao ponto de quando ela vai trabaçhar na coleta de ervas na estrada da Ceasa sofre discriminação. Os maiores autores são os vigilantes de prédios públicos, pessoas humildes e carregada de uma carga cultural preconceituosa. "Nunca me expulsaram do local, mas já disseram que eu estaria sendo convidada a me retirar das proximidades do prédio, onde coletava as ervas", relata. 
  Conhecimento é arma para defesa contra perseguição na escola


A luta para combater o preconceito começa desde cedo e a partir do conhecimento. Um adolescente, 13 anos, que preferiu o anonimato, é iniciante (Ogan) da nação Angola, e estudante de uma escola evangélica em Belém. Ele conta que não chegou, até o momento, a sofrer discriminação por sua identidade religiosa, porém, lembra que chegou a presenciar uma amiga sendo discriminada porque trajava roupas e adereços brancos. "No começo escondia minha religião porque entrei novinho e na escola dizia que era católico. Mas, agora, aprendi a me defender também. Para isso, me preparo conhecendo as leis para eu saber como fazer esta defesa", diz o menino, já demonstrando confiança nas palavras.
Ele conta que durante uma das aulas, a professora de Ensino Religioso fez uma explanação sobre todas as religiões, entretanto, quando chegou às religiões afrobrasileiras, citou superficialmente e ele reagiu com questionamento. Na opinião dele, o desconhecimento do professor e a carga preconceituosa levou ele a um comportamento que não corresponde a de um educador. "Mas, a minha insatisfação me levou a uma outra professora de Educação Religiosa da minha escola, que contou a sua origem nas religiões afro-religiosas. Apesar de ser evangélica, ela é esclarecida, mas porque a mãe dela era mãe de santo. Então, a forma de ensinar dela não é de uma pessoa leiga, mas de que conhece e respeita as diferentes religiões", ressalta.


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